Eu_Prostituta
Minhas histórias, Outras viagens

O dia que eu recebi uma lição de moral por ser prostituta

Em uma manhã de dezembro, chamei o taxi que passava na movimentada avenida de Lisboa. Achava que essa seria uma corrida como qualquer outra e nem imaginava que jamais esqueceria aqueles dez minutos…

Entrei no carro, falei bom dia e para aonde iria. O taxista português imediatamente começou a conversa:

  • És brasileira?
  • Sim, sou brasileira.
  • O que fazes em Lisboa?
  • Hoje estou só passeando, mas estou aqui trabalhando.
  • A trabalhar em Lisboa… Com o que trabalhas?
  • Sou engenheira, mas trabalho com marketing.
  • Esta nunca havia escutado… Então a rapariga é mesmo engenheira? Engenheira de que?
  • Engenheira Agrônoma.
  • Engenheira Agrônoma… Tu sabias que é preciso estudar para ser engenheira?
  • Perdão?
  • Rapariga, eu sei muito bem o que fazes em Lisboa. Não sou policial, não tens que mentir.

Fiquei muda, completamente perdida. Como assim não tem que mentir? O que que a polícia tem a ver com meu trabalho? Por que raios esse cara resolveu puxar conversa?

Então, assim mesmo completamente do nada, ele começou a falar que as jovens brasileiras, como eu, estávamos atrapalhando o país dele. Disse que a maioria das prostitutas de Portugal são brasileiras (o que não é verdade) e que já era hora de pararmos de ir pra lá fazer isso. Sugeriu que deveríamos tentar ir pra Itália porque era fácil de entender o italiano. E blá blá blá…

Depois do seu monólogo, claro que entendi o que estava acontecendo: o português tinha mesmo certeza de que eu era prostituta!

Fazia frio, e eu estava coberta de roupas da cabeça aos pés. Estava sem salto, sem maquiagem,  sem bolsinha e sem nada vermelho. Eu não rebolo quando ando e, ainda por cima, estava com uma mochila nas costas. Ou seja, nenhum outro clichê se aplica.

Percebam que a situação é mesmo grave porque ele chegou à essa conclusão baseado apenas em uma informação: eu sou uma jovem brasileira! Isso já era suficiente para assumir que eu não poderia estar fazendo outra coisa em Lisboa. É o fim do mundo, ou eu é que estou ficando louca?

Infelizmente só senti essa revolta horas depois que saí do taxi… Por alguma razão, naquele momento eu precisava convencê-lo de que eu era mesmo engenheira e meu trabalho era outro. Além de tudo, eu nem morava lá!

Bom, adivinhem o que aconteceu quando eu comecei a me justificar? Comecei a chorar.

Nessa hora o português ficou mudo. Percebeu que foi longe demais e aí  foi ele quem começou a se justificar. Ele até se desculpou.

Saí do taxi, ainda aos prantos, e claro que esse episódio estragou meu dia. Voltei pro hotel e trabalhei até a noite. Antes do jantar, fui ao bar do hotel ler meu livro e tomar um drinque. Eu tinha a sensação de que todos os homens ao meu redor estavam me olhando e poderiam estar pensando que fosse prostituta. Fui embora dali sem mesmo terminar minha bebida, antes que alguém viesse me perguntar “quanto custa o programa?”.

Posso entender que as estatísticas não me ajudam muito: Ano passado, um estudo da Faculdade de Psicologia do Porto entrevistou as profissionais do sexo de Portugal e descobriu que 32% delas são brasileiras.

O perfil padrão é bem parecido com o meu: brancas, maiores de idade, com curso médio ou superior (Dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal).

Mas e daí? Isso dá direito ao taxista de me rotular e julgar?

Li em blogs de outras brasileiras morando no exterior que muitas delas já passaram por situações semelhantes na Europa. Isso aconteceu comigo há quase dez anos e pelo visto a tendência não é melhorar.

Preconceito é muito feio, muito errado e muito o fim do mundo! Enquanto morava no Brasil, esse meu mesmo perfil me deixava em uma situação confortável. Mas fico imaginando o que é passar toda a sua vida sendo rotulado e julgado. Você já pensou nisso?

Queria deixar claro que, apesar de ter me ofendido, não quero eu ser errada com as prostitutas! Sem hipocrisia, acho fundamental cada um poder escolher o que quer fazer da própria vida. Essas mulheres tem meu respeito sim. Não gosto nem de imaginar os sufocos que elas passam… Inclusive, aquele mesmo estudo da Faculdade de Psicologia do Porto mostra que quase metade delas sofre de doença mental. Bizarro, né? Mas isso não vem ao caso nesta conversa…

Também quero registrar que não é porque alguns portugueses são preconceituosos conosco, que podemos assumir que todo português é racista. É justamente este o meu ponto: da mesma forma que nem toda brasileira ganha a vida fazendo sexo, está errado afirmar que todo muçulmano é terrorista, todo asiático é tímido, todo nordestino é folgado, todo negro é bandido e etc. A lista de clichês é bem longa, por isso minha dica é: cuidado com o que você fala e pensa. Toda generalização é burra, inclusive essa! (hein?)

Uma das coisas que mais me fascinam nesta vida de viajante é constantemente poder aprender sobre as pessoas e superar meus próprios preconceitos. Fiz amigos asiáticos, negros, europeus, comunistas, conservadores, gays, muçulmanos, judeus, budistas, ateus, extremamente ricos, extremamente pobres, extremamente inteligentes, extremamente simples, gente que foi pra guerra, gente que viajou o mundo e gente que mora em uma cidade perdida no meio do nada. Isso mudou minha forma de ver a vida.

Por um mundo melhor, com menos taxistas achando que sou prostituta, com menos preconceito e mais balinhas*! Namaste!

*Essa história de balinhas eu explico em um outro post

Algumas fontes desse artigo:

Quase metade das prostitutas em Portugal sofre de doença mental

Estudo identifica perfil das prostitutas brasileiras em Portugal

Pesquisador brasileiro está em Portugal para apresentar painel sobre prostituição internacional

Brasileiras em Portugal: prostituição e estigmatização, um relato em primeira pessoa

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4 Comments

  • Reply Pipo 8 de outubro de 2015 at 6:48 pm

    Mano…. já fiquei puto qdo ele, o taxista, começou a falar porcaria logo no começo do texto! hahaha!
    Bom texto! Parabéns!

    • Reply Rachel Filipov 8 de outubro de 2015 at 11:06 pm

      Oi Pipo, obrigada pelo seu comentário! Pois é, ainda bem que nem todo português e nem todo taxista é assim! Abraço Rachel

  • Reply Korgo 9 de outubro de 2015 at 4:42 pm

    Caramba Picolé !!!!! Impressionante a visão de certas pessoas que revoltadas com algum problema pontual generalizam e agridem verbalmente terceiros q nao tem nada a ver com o pato.!!!! Forsa (com s pq nao consigo escrever cedilha no celular podrera) pq so quem viaja bastante passa por perrengues assim!!!!

    Abraco!

    • Reply Rachel Filipov 11 de outubro de 2015 at 3:57 pm

      Pois é, Korgo. Não dá pra entender, né? Preconceito é realmente o reflexo da ignorância. Obrigada pelo comentário. Abraço!

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