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Minhas histórias

Dicas, Minhas histórias, Ser mãe no exterior

Ser mãe no exterior é mais fácil do que no Brasil?

Gravida

Difícil cuidar de filho, né?
Agora imagine isso sem a ajuda da mãe, da sogra, da tia, da cunhada, ou das amigas de infância.
Imagine visitas ao obstetra e ao pediatra em um idioma que não é o seu.
Imagine médicos te falando o oposto do que os médicos do Brasil falam.
Imagine ter que vestir seu bebê para encarar temperaturas abaixo de zero.
Imagine você longe da família com uma gravidez cheia de complicações.
Imagine a culpa de estar privando seus pais e avós de participarem do crescimento de seu bebê.
Pronto, desabafei!
Coloque tudo isso na balança antes de decidir sair do Brasil…

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Curiosidades, Minhas histórias, Outras viagens

Discurso Anti-Trump do Mana

Muitos artistas estão se posicionando nestas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Este foi o discurso anti-Trump do vocalista do Mana, Fher Olvera, no show de ontem aqui em Atlanta:
“Estamos vivendo um momento histórico na vida dos latinos e dos mexicanos neste país. Mana vem tocar nos Estados Unidos há vinte e tantos anos, e temos visto como os latinos e os mexicanos vem crescendo e crescendo, e conseguindo trabalhos com melhores salários e mais respeito. Não para que chegue um “cabrón” e faça as coisas voltarem atrás… Aqui nós não admitimos nem racismo nem violência. Isso era coisa dos alemães nazistas. Aqui se respeita os mexicanos! Esta vez, botem as pessoas em seus lugares. Mostrem sua força. Votem! Viva America Latina, Viva Mexico!”
#latinopower #latinovote

Oro Verde, Argentina 2013. Meu primeiro intercâmbio!
Dicas, Minhas histórias

10 dicas que podem mudar seus planos de intercâmbio

Estudar ou trabalhar no exterior é, sem dúvida, uma ótima idéia. Se você pode investir um dinheirinho (ou um dinheirão) para aprender outro idioma, vale a pena. Mas o que é preciso saber antes de escolher para onde ir, quando e como?

Ao longo dos últimos 13 anos, morei em sete países diferentes, fiz alguns intercâmbios* e conheci muitos estudantes. Aqui estão as dicas que fizeram falta para mim no passado:

 

  1. Evite cidades ou países onde fala-se muitos idiomas ou dialetos

Uma das grandes vantagens de estudar no exterior é a exposição total àquela sociedade que fala tal idioma. Ter que se virar e escutar as pessoas se comunicando são fundamentais nesse processo. Mas em lugares onde muitas línguas são faladas, essa exposição fica limitada. Por exemplo, na África do Sul há onze idiomas oficiais. Ainda que a maioria da população fale inglês, as pessoas nem sempre se comunicam assim. Quando fiz meu intercambio em Cape Town, fiquei frustrada por quase nunca escutar inglês nas ruas.

Da mesma forma, aprender espanhol em Barcelona pode não ser a melhor opção. Ainda que a cidade seja fantástica, Catalão é o principal idioma da região e isso pode atrapalhar seu aprendizado.

Há muitos outros exemplos, como Suíça, Bélgica, e até mesmo algumas regiões da França e da Itália. Investigue bem antes de tomar uma decisão.

 

  1. Analise o fuso horário

Não menospreze a importância do fuso-horário com relação ao Brasil, sobretudo se você é apegado à família, ou vai deixar um namorado (a) te esperando na sua cidade…

A Austrália e a Nova Zelândia são, obviamente, os exemplos mais extremos nesse caso. Todos os dias da semana, quando você acordar para ir à escola, o pessoal no Brasil estará se preparando pra jantar. Quando você voltar da escola, todo mundo já estará dormindo. Mas e no final de semana? Com tantas coisas legais para fazer, duvido que você vai querer passar o final de semana fechado em casa falando no Skype!

Quando moramos na Austrália, este foi um dos nossos principais desafios.

 

  1. Avalie o estilo da cidade para onde pretende ir

Se você mora em uma cidade relativamente pequena no Brasil, não tenho certeza de que sair de casa pela primeira vez e ir estudar em Nova Iorque, por exemplo, seja uma boa idéia… Essa enorme diferença no estilo de vida pode tomar muito do seu tempo de adaptação e te causar um bloqueio. Da mesma forma, se você for paulistano, pode ser que morra de tédio morando no interior da Inglaterra.  Para quem surfa toda semana, passar seis meses onde não há praias por perto pode ser difícil demais…

Por outro lado, se experimentar o dia-a-dia de uma cidade grande/ pequena/ sem praia for parte da descoberta que você estiver buscando, atreva-se!

 

  1. Escolha bem a estação do ano

Não menospreze esse “detalhe”! Se você é daqueles que deixa de sair de casa quando está menos de 10 graus Celsius, não invente de ir morar em cidades de clima temperado no inverno! Ainda que os ambientes internos sejam geralmente aquecidos, andar a pé nas ruas será inevitavelmente uma tortura diária para você.

A mesma regra se aplica no verão. Algumas cidades dos Estados Unidos passam de 40 graus Celsius.  Tem certeza de que você quer encarar isso? Cuidado também com as temporadas de chuvas e ciclones.

 

  1. Vai ficar em casa de família? Tem certeza?

Fazer parte de uma outra família por alguns meses pode ser uma experiência fantástica, sobretudo para adolescentes. Conheço pessoas que voltaram para o Brasil com o coração partido por deixar sua “família estrangeira” para traz, e depois de muitos anos, ainda mantém contato com seus “pais e irmãos” importados. Mas antes de fechar um pacote com a agência, certifique-se de que você está pronto para encarar isso. Minhas duas experiências com este estilo de “hospedagem” foram péssimas. Eu não estava em busca de uma experiência familiar em minhas viagens e acho que dei azar com as “mães” que tive. Ter outros adultos, que não tem nada a ver com a minha vida, se sentindo responsáveis por mim, realmente não foi legal. E’ importante dizer que eu já tinha mais de 20 anos nas duas ocasiões…  Para você, isso seria um problema?

 

  1. Evite locais com sotaque muito forte

Se aprender um novo idioma já te parece difícil, imagine tendo que fazer isso onde o sotaque das pessoas não ajuda… Pense bem antes de incluir na sua lista lugares como África do Sul, Irlanda, interior da Austrália, centro dos Estados Unidos e Canadá (para francês).

 

  1. Busque suas comunidades

Se você faz parte de alguma comunidade, seja ela religiosa ou não, recomendo buscar lugares onde haja pessoas como você por lá. Tente se conectar com a sua turma antes mesmo de sair do Brasil. Associações e clubes geralmente acolhem com muita atenção os seus companheiros estrangeiros. Procure Igrejas, Sinagogas, grupos de escoteiros, de artesanato, velejadores, caçadores de Pokémon, seja qual for a sua praia!

 

  1. Cuidado com a faculdade

Se você está pensando em ir para o exterior quando terminar a faculdade, aconselho rever esse plano.  Trancar um semestre (ou um ano), viajar, e depois voltar para o Brasil para terminar seu curso pode facilitar sua vida na hora de encontrar um emprego. Desta forma, você vai conseguir aproveitar ao máximo sua experiência morando fora, sem ter que se preocupar com o que vai acontecer nos próximos meses, quando voltar para o Brasil.

Esta experiência também pode te ajudar a entender o rumo que vai querer dar para sua carreira profissional e, voltar para a faculdade, pode ser fundamental para fazer as necessárias mudanças nos seus planos.

 

  1. Busque congressos ou cursos na sua área durante sua viagem

Por que não aproveitar sua viagem para participar de um congresso ou seminário na sua área? Se seu nível do idioma for, pelo menos, intermediário, por que não fazer um curso profissionalizante? Algumas faculdades promovem cursos noturnos de curta duração. Quando morei no México, fiz um curso fantástico de finanças, em uma das melhores universidades do país, que durou apenas quatro semanas.  Além de dar uma valorizada no seu curriculum, você terá uma oportunidade única de networking internacional, vai aprender sobre coisas interessantes e terá uma experiência diferente. Isso também pode ajudar a convencer seu chefe (ou seu pai) de que essa viagem vale a pena.

 

  1. Cuidado com o orçamento

As primeiras coisas que colocamos no orçamento de um intercâmbio são o custo da escola, da passagem aérea, hospedagem e alimentação, certo?  Mas se você for morar em uma cidade como Atlanta ou Orlando, nos Estados Unidos, terá que acrescentar o aluguel de um carro porque o transporte público não te leva para todos os lados. Mesmo que viva perto da escola, sua experiência será muito limitada se não tiver um carro.

Independentemente da cidade que escolha, pesquise muito e tente detalhar ao máximo seu orçamento. Não deixe de levar um dinheirinho para shows, eventos esportivos, baladinhas, museus, festivais e até mesmo eventos profissionais, como já falamos.

Não gaste todo seu dinheiro com lojas! Acredite, as coisas que você comprar um dia vão acabar. Experimente e descubra! Tudo o que vivenciar ficará para sempre contigo.

 

*Esta foto é do meu primeiro intercâmbio, na Argentina, em 2003.  Esse foi o começo da minha descoberta do mundo.

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Minhas histórias, Outras viagens

O dia que eu recebi uma lição de moral por ser prostituta

Em uma manhã de dezembro, chamei o taxi que passava na movimentada avenida de Lisboa. Achava que essa seria uma corrida como qualquer outra e nem imaginava que jamais esqueceria aqueles dez minutos…

Entrei no carro, falei bom dia e para aonde iria. O taxista português imediatamente começou a conversa:

  • És brasileira?
  • Sim, sou brasileira.
  • O que fazes em Lisboa?
  • Hoje estou só passeando, mas estou aqui trabalhando.
  • A trabalhar em Lisboa… Com o que trabalhas?
  • Sou engenheira, mas trabalho com marketing.
  • Esta nunca havia escutado… Então a rapariga é mesmo engenheira? Engenheira de que?
  • Engenheira Agrônoma.
  • Engenheira Agrônoma… Tu sabias que é preciso estudar para ser engenheira?
  • Perdão?
  • Rapariga, eu sei muito bem o que fazes em Lisboa. Não sou policial, não tens que mentir.

Fiquei muda, completamente perdida. Como assim não tem que mentir? O que que a polícia tem a ver com meu trabalho? Por que raios esse cara resolveu puxar conversa?

Então, assim mesmo completamente do nada, ele começou a falar que as jovens brasileiras, como eu, estávamos atrapalhando o país dele. Disse que a maioria das prostitutas de Portugal são brasileiras (o que não é verdade) e que já era hora de pararmos de ir pra lá fazer isso. Sugeriu que deveríamos tentar ir pra Itália porque era fácil de entender o italiano. E blá blá blá…

Depois do seu monólogo, claro que entendi o que estava acontecendo: o português tinha mesmo certeza de que eu era prostituta!

Fazia frio, e eu estava coberta de roupas da cabeça aos pés. Estava sem salto, sem maquiagem,  sem bolsinha e sem nada vermelho. Eu não rebolo quando ando e, ainda por cima, estava com uma mochila nas costas. Ou seja, nenhum outro clichê se aplica.

Percebam que a situação é mesmo grave porque ele chegou à essa conclusão baseado apenas em uma informação: eu sou uma jovem brasileira! Isso já era suficiente para assumir que eu não poderia estar fazendo outra coisa em Lisboa. É o fim do mundo, ou eu é que estou ficando louca?

Infelizmente só senti essa revolta horas depois que saí do taxi… Por alguma razão, naquele momento eu precisava convencê-lo de que eu era mesmo engenheira e meu trabalho era outro. Além de tudo, eu nem morava lá!

Bom, adivinhem o que aconteceu quando eu comecei a me justificar? Comecei a chorar.

Nessa hora o português ficou mudo. Percebeu que foi longe demais e aí  foi ele quem começou a se justificar. Ele até se desculpou.

Saí do taxi, ainda aos prantos, e claro que esse episódio estragou meu dia. Voltei pro hotel e trabalhei até a noite. Antes do jantar, fui ao bar do hotel ler meu livro e tomar um drinque. Eu tinha a sensação de que todos os homens ao meu redor estavam me olhando e poderiam estar pensando que fosse prostituta. Fui embora dali sem mesmo terminar minha bebida, antes que alguém viesse me perguntar “quanto custa o programa?”.

Posso entender que as estatísticas não me ajudam muito: Ano passado, um estudo da Faculdade de Psicologia do Porto entrevistou as profissionais do sexo de Portugal e descobriu que 32% delas são brasileiras.

O perfil padrão é bem parecido com o meu: brancas, maiores de idade, com curso médio ou superior (Dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal).

Mas e daí? Isso dá direito ao taxista de me rotular e julgar?

Li em blogs de outras brasileiras morando no exterior que muitas delas já passaram por situações semelhantes na Europa. Isso aconteceu comigo há quase dez anos e pelo visto a tendência não é melhorar.

Preconceito é muito feio, muito errado e muito o fim do mundo! Enquanto morava no Brasil, esse meu mesmo perfil me deixava em uma situação confortável. Mas fico imaginando o que é passar toda a sua vida sendo rotulado e julgado. Você já pensou nisso?

Queria deixar claro que, apesar de ter me ofendido, não quero eu ser errada com as prostitutas! Sem hipocrisia, acho fundamental cada um poder escolher o que quer fazer da própria vida. Essas mulheres tem meu respeito sim. Não gosto nem de imaginar os sufocos que elas passam… Inclusive, aquele mesmo estudo da Faculdade de Psicologia do Porto mostra que quase metade delas sofre de doença mental. Bizarro, né? Mas isso não vem ao caso nesta conversa…

Também quero registrar que não é porque alguns portugueses são preconceituosos conosco, que podemos assumir que todo português é racista. É justamente este o meu ponto: da mesma forma que nem toda brasileira ganha a vida fazendo sexo, está errado afirmar que todo muçulmano é terrorista, todo asiático é tímido, todo nordestino é folgado, todo negro é bandido e etc. A lista de clichês é bem longa, por isso minha dica é: cuidado com o que você fala e pensa. Toda generalização é burra, inclusive essa! (hein?)

Uma das coisas que mais me fascinam nesta vida de viajante é constantemente poder aprender sobre as pessoas e superar meus próprios preconceitos. Fiz amigos asiáticos, negros, europeus, comunistas, conservadores, gays, muçulmanos, judeus, budistas, ateus, extremamente ricos, extremamente pobres, extremamente inteligentes, extremamente simples, gente que foi pra guerra, gente que viajou o mundo e gente que mora em uma cidade perdida no meio do nada. Isso mudou minha forma de ver a vida.

Por um mundo melhor, com menos taxistas achando que sou prostituta, com menos preconceito e mais balinhas*! Namaste!

*Essa história de balinhas eu explico em um outro post

Algumas fontes desse artigo:

Quase metade das prostitutas em Portugal sofre de doença mental

Estudo identifica perfil das prostitutas brasileiras em Portugal

Pesquisador brasileiro está em Portugal para apresentar painel sobre prostituição internacional

Brasileiras em Portugal: prostituição e estigmatização, um relato em primeira pessoa

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Minhas histórias

Como fui parar em um almoço com o Presidente da França e o Primeiro Ministro Australiano

Em uma ordinária tarde de terça-feira, estava eu no trabalho, em Sydney, quando escutei a frase mais inesperada da minha vida:

– “Rachel, você recebeu um convite para almoçar com o Presidente francês e o Primeiro Ministro australiano!” Quem falava era o Daniel, meu funcionário australiano, que tinha acabado de receber uma ligação do gabinete do Primeiro Ministro.

Minha primeira reação foi achar que entendi errado:

– “Excuse me?” , Digo eu.

– “O Primeiro Ministro australiano está convidando você para um almoço em honra do Presidente francês.”, Explica o Daniel, mega empolgado.

– “Você pode repetir, por favor?” Digo eu, outra vez…

– “O Presidente francês vem pra Austrália daqui a duas semanas. Acabei de receber uma ligação de Canberra. Você está sendo convidada pra almoçar com ele. O convite oficial chega essa semana. Eles precisam confirmar se você vai.”

Depois de fazê-lo repetir mais algumas vezes, me dei conta de que ele estava mesmo falando o que eu tinha entendido… Mas fala sério! Quando na minha vida eu poderia imaginar receber um convite desses?

Eu sabia que o François Hollande estava pra chegar na Austrália, por isso aquilo até fazia um pouco de sentido. Peguei meu celular, me afastei das pessoas e liguei para o gabinete do Primeiro Ministro (na época, o Tony Abbott) para ter certeza de que não se tratava de um mal entendido. Falei com a organizadora do evento que me garantiu que era tudo verdade. Perguntei se o convidado não deveria ser chefe, o CEO da empresa na Austrália. Ela disse que que o convite era para mim, não para a empresa, e que era intransferível.

E agora? Como você se prepara para um evento desses? Como eu vou contar isso pras pessoas? Que roupa eu vou? Vou de salto? Levo bolsa? Posso tirar foto? Vai passar na televisão? O que eu vou falar pro Presidente? E pro Primeiro Ministro? Como eu vou pra Canberra?

Aos poucos minhas duvidas foram se esclarecendo. Acabei contando pra pouca gente e decidimos que esse seria um momento especial para nossa família. Fomos todos de carro (3 horas) pra capital australiana: O Franck, a Sara, a Ju (minha amiga carioca que estava nos visitando) e eu!

A turma toda me acompanhou até a National Gallery, um museu maravilhoso onde foi o evento. Chegamos bem antes que todos os outros convidados.

Almoco_com_PresidenteNa fila para entrar na sala de eventos, percebi que eu não era a única pessoa que parecia perdida naquele ambiente. Abordei uma moça que também estava sozinha e logo fizemos amizade. Ela era francesa, morava na Austrália há dez anos e trabalhava com pesquisa cientifica.

Tivemos um coquetel no jardim da galeria, mas até então, nada de Presidente ou Primeiro Ministro. Depois de cerca de uma hora, passamos para a sala principal de eventos. As mesas eram pré-definidas e minha nova melhor amiga não estava comigo.

Ao meu lado estavam um guarda-costas, os embaixadores polonês e sul-coreano, dois empresários franceses, a presidente da Aliança Francesa e uma das mais famosas designers australianas, a Kim Ellery. Aliais, a marca dela- Ellery- é maravilhosa; ela faz roupa pra Madonna.

Cerca de 20 minutos depois, finalmente Francois Holande e Tony Abbott chegaram. Todos ficaram em pé e aplaudiram sua chegada. Eles se sentaram na mesa ao lado da minha.

Poucas vezes na vida estive tão nervosa. Completamente fora da minha zona de conforto, não sabia que tipo de assunto abordar com o pessoal da minha mesa. Conclusão: só dei bola fora. Confundi a bandeira da Bélgica com a da Polônia (elas não tem NADA a ver), reclamei de ter que levar a Sara pra creche de ônibus na época da chuva (esse povo não anda de ônibus), perguntei pro embaixador se ele ia a muitos eventos como esse (óbvio que sim), e por aí vai…

Mas o mico maior foi na hora do brinde… Você sabia que em eventos diplomáticos não pode fazer barulho de copos batendo na hora do brinde? Não sabia, né? Pois é claro que eu também não sabia…

A mestre de cerimonias (Sarah Murdoch, uma celebridade australiana), anuncia que o Primeiro Ministro quer fazer um brinde em homenagem ao Presidente francês. Todos ficam em pé. Tony Abbott ergue a taça. Todos erguem a taça. Os convidados da mesa dele brindam. Eu viro pro lado toda empolgada e bato minha taça com a da Kim Ellery. Ela olha pra mim com cara de ‘o que você está fazendo’ e sussurra “shiiii, nós não podemos fazer barulho”. Olho pro lado e está todo mundo olhando pra mim… E fui a única jeca que fez barulho nessa hora. Como eu poderia saber que só os convidados da mesa dele podem bater as taças? Fala sério…

O fora do brinde me deixou ainda mais desorientada, mas logo os chefes de estado e o líder da oposição, Hon Bill Shorten, fizeram seus discursos. Essa parte foi bem interessante. Eles falaram sobre a relação entre os dois países desde o “descobrimento” da Austrália, passando pela Primeira Guerra Mundial, até os dias de hoje.

Os discursos me acalmaram e eu tinha até começado a me sentir um pouco mais a vontade. Eu me perguntava se teria a oportunidade de falar com os políticos. Se eles viessem me cumprimentar, o que eu diria? Como eu me apresentaria? Poderia pedir pra tirar uma foto com eles?

Aa perguntas continuaram sem respostas, e antes do almoço ser servido, tivemos uma bela apresentação do The Australian Ballet (Stringspace String Quartet). Muita gente começou a tirar fotos dos bailarinos, então eu aproveitei pra tirar algumas também. Todas ficaram péssimas.

Em seguida, chegou o primeiro prato típico australiano: salada de camarões com aipo, tomate e abacate! Advinha quem não come camarão? Eu! Nessa hora, desisti de tentar pertencer àquele grupo de pessoas que não tem nada a ver comigo… Aceitei que o pé já estava completamente na jaca, e nem fiz questão de ser diplomática. Deixei os bichinos no meu prato, olhei pros meus amiguinhos e fiz cara de ‘é, camarões; não vai dar…’.

Pra minha sorte, o prato principal estava bem bom: carneiro com ratatouille, flor de abobrinha e suco de tomilho. Mas antes mesmo de chegar a sobremesa, uma movimentação estranha começou na mesa ao lado da minha. Estavam todos em pé, e nao parava de chegar gente pra tirar foto com o François Hollande. Me perguntei: será que é agora que devo ir cumprimenta-los? Eles vão passar em todas as mesas? Espero a sobremesa?

Mas antes mesmo de encontrar minhas respostas, acabou tudo! Quando eu olho pro lado, vejo os guarda-costas fazendo uma fila, e o Presidente e o Primeiro Ministro saindo da sala, e acabou! Assim, de repente. Fiquei olhando pro nada por alguns segundos, e tive que aceitar a realidade: Fui até Canberra, paguei mico e não tirei nenhuma selfie com eles!

Quase todos foram embora quando o Presidente saiu e quando a sobremesa chegou, a sala já estava quase vazia. Peguei meu sorbet de framboesa, sentei na mesa da francesa cientista, e ficamos rindo da nossa situação patética. Ela não brindou na hora errada, mas tampouco tirou foto com as celebridades.

Agora você ainda deve estar se perguntando por que eu fui convidada para um evento desses? A resposta é simples: Não sei! Até hoje eu me faço a mesma pergunta. Algumas das pistas são porque eu trabalhava para uma empresa francesa e falo francês. Meu ex-chefe acha que escolheram meu pelo LinkedIn. A verdade é que eu nunca saberei ao certo…

Apesar das frustrações e bolas fora, adorei a experiência. Quais é a probabilidade de eu receber um convite desses novamente? Zero. Mas se isso acontecer com você, pelo menos agora já sabe: não pode fazer barulho na hora do brinde!

 

Vinhos australianos servidos no evento: Philip Shaw

Philip Shaw No. 11 Chardonnay 2013, Orange

Leeuwin Estate Art Series Riesling 2013, Margaret River

Cape Mentelle ‘Trinders’ Cabernet Merlot, Margaret River

Clonakilla Hilltops Shiraz 2013, Canberra Region