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Minhas histórias

Como fui parar em um almoço com o Presidente da França e o Primeiro Ministro Australiano

Em uma ordinária tarde de terça-feira, estava eu no trabalho, em Sydney, quando escutei a frase mais inesperada da minha vida:

– “Rachel, você recebeu um convite para almoçar com o Presidente francês e o Primeiro Ministro australiano!” Quem falava era o Daniel, meu funcionário australiano, que tinha acabado de receber uma ligação do gabinete do Primeiro Ministro.

Minha primeira reação foi achar que entendi errado:

– “Excuse me?” , Digo eu.

– “O Primeiro Ministro australiano está convidando você para um almoço em honra do Presidente francês.”, Explica o Daniel, mega empolgado.

– “Você pode repetir, por favor?” Digo eu, outra vez…

– “O Presidente francês vem pra Austrália daqui a duas semanas. Acabei de receber uma ligação de Canberra. Você está sendo convidada pra almoçar com ele. O convite oficial chega essa semana. Eles precisam confirmar se você vai.”

Depois de fazê-lo repetir mais algumas vezes, me dei conta de que ele estava mesmo falando o que eu tinha entendido… Mas fala sério! Quando na minha vida eu poderia imaginar receber um convite desses?

Eu sabia que o François Hollande estava pra chegar na Austrália, por isso aquilo até fazia um pouco de sentido. Peguei meu celular, me afastei das pessoas e liguei para o gabinete do Primeiro Ministro (na época, o Tony Abbott) para ter certeza de que não se tratava de um mal entendido. Falei com a organizadora do evento que me garantiu que era tudo verdade. Perguntei se o convidado não deveria ser chefe, o CEO da empresa na Austrália. Ela disse que que o convite era para mim, não para a empresa, e que era intransferível.

E agora? Como você se prepara para um evento desses? Como eu vou contar isso pras pessoas? Que roupa eu vou? Vou de salto? Levo bolsa? Posso tirar foto? Vai passar na televisão? O que eu vou falar pro Presidente? E pro Primeiro Ministro? Como eu vou pra Canberra?

Aos poucos minhas duvidas foram se esclarecendo. Acabei contando pra pouca gente e decidimos que esse seria um momento especial para nossa família. Fomos todos de carro (3 horas) pra capital australiana: O Franck, a Sara, a Ju (minha amiga carioca que estava nos visitando) e eu!

A turma toda me acompanhou até a National Gallery, um museu maravilhoso onde foi o evento. Chegamos bem antes que todos os outros convidados.

Almoco_com_PresidenteNa fila para entrar na sala de eventos, percebi que eu não era a única pessoa que parecia perdida naquele ambiente. Abordei uma moça que também estava sozinha e logo fizemos amizade. Ela era francesa, morava na Austrália há dez anos e trabalhava com pesquisa cientifica.

Tivemos um coquetel no jardim da galeria, mas até então, nada de Presidente ou Primeiro Ministro. Depois de cerca de uma hora, passamos para a sala principal de eventos. As mesas eram pré-definidas e minha nova melhor amiga não estava comigo.

Ao meu lado estavam um guarda-costas, os embaixadores polonês e sul-coreano, dois empresários franceses, a presidente da Aliança Francesa e uma das mais famosas designers australianas, a Kim Ellery. Aliais, a marca dela- Ellery- é maravilhosa; ela faz roupa pra Madonna.

Cerca de 20 minutos depois, finalmente Francois Holande e Tony Abbott chegaram. Todos ficaram em pé e aplaudiram sua chegada. Eles se sentaram na mesa ao lado da minha.

Poucas vezes na vida estive tão nervosa. Completamente fora da minha zona de conforto, não sabia que tipo de assunto abordar com o pessoal da minha mesa. Conclusão: só dei bola fora. Confundi a bandeira da Bélgica com a da Polônia (elas não tem NADA a ver), reclamei de ter que levar a Sara pra creche de ônibus na época da chuva (esse povo não anda de ônibus), perguntei pro embaixador se ele ia a muitos eventos como esse (óbvio que sim), e por aí vai…

Mas o mico maior foi na hora do brinde… Você sabia que em eventos diplomáticos não pode fazer barulho de copos batendo na hora do brinde? Não sabia, né? Pois é claro que eu também não sabia…

A mestre de cerimonias (Sarah Murdoch, uma celebridade australiana), anuncia que o Primeiro Ministro quer fazer um brinde em homenagem ao Presidente francês. Todos ficam em pé. Tony Abbott ergue a taça. Todos erguem a taça. Os convidados da mesa dele brindam. Eu viro pro lado toda empolgada e bato minha taça com a da Kim Ellery. Ela olha pra mim com cara de ‘o que você está fazendo’ e sussurra “shiiii, nós não podemos fazer barulho”. Olho pro lado e está todo mundo olhando pra mim… E fui a única jeca que fez barulho nessa hora. Como eu poderia saber que só os convidados da mesa dele podem bater as taças? Fala sério…

O fora do brinde me deixou ainda mais desorientada, mas logo os chefes de estado e o líder da oposição, Hon Bill Shorten, fizeram seus discursos. Essa parte foi bem interessante. Eles falaram sobre a relação entre os dois países desde o “descobrimento” da Austrália, passando pela Primeira Guerra Mundial, até os dias de hoje.

Os discursos me acalmaram e eu tinha até começado a me sentir um pouco mais a vontade. Eu me perguntava se teria a oportunidade de falar com os políticos. Se eles viessem me cumprimentar, o que eu diria? Como eu me apresentaria? Poderia pedir pra tirar uma foto com eles?

Aa perguntas continuaram sem respostas, e antes do almoço ser servido, tivemos uma bela apresentação do The Australian Ballet (Stringspace String Quartet). Muita gente começou a tirar fotos dos bailarinos, então eu aproveitei pra tirar algumas também. Todas ficaram péssimas.

Em seguida, chegou o primeiro prato típico australiano: salada de camarões com aipo, tomate e abacate! Advinha quem não come camarão? Eu! Nessa hora, desisti de tentar pertencer àquele grupo de pessoas que não tem nada a ver comigo… Aceitei que o pé já estava completamente na jaca, e nem fiz questão de ser diplomática. Deixei os bichinos no meu prato, olhei pros meus amiguinhos e fiz cara de ‘é, camarões; não vai dar…’.

Pra minha sorte, o prato principal estava bem bom: carneiro com ratatouille, flor de abobrinha e suco de tomilho. Mas antes mesmo de chegar a sobremesa, uma movimentação estranha começou na mesa ao lado da minha. Estavam todos em pé, e nao parava de chegar gente pra tirar foto com o François Hollande. Me perguntei: será que é agora que devo ir cumprimenta-los? Eles vão passar em todas as mesas? Espero a sobremesa?

Mas antes mesmo de encontrar minhas respostas, acabou tudo! Quando eu olho pro lado, vejo os guarda-costas fazendo uma fila, e o Presidente e o Primeiro Ministro saindo da sala, e acabou! Assim, de repente. Fiquei olhando pro nada por alguns segundos, e tive que aceitar a realidade: Fui até Canberra, paguei mico e não tirei nenhuma selfie com eles!

Quase todos foram embora quando o Presidente saiu e quando a sobremesa chegou, a sala já estava quase vazia. Peguei meu sorbet de framboesa, sentei na mesa da francesa cientista, e ficamos rindo da nossa situação patética. Ela não brindou na hora errada, mas tampouco tirou foto com as celebridades.

Agora você ainda deve estar se perguntando por que eu fui convidada para um evento desses? A resposta é simples: Não sei! Até hoje eu me faço a mesma pergunta. Algumas das pistas são porque eu trabalhava para uma empresa francesa e falo francês. Meu ex-chefe acha que escolheram meu pelo LinkedIn. A verdade é que eu nunca saberei ao certo…

Apesar das frustrações e bolas fora, adorei a experiência. Quais é a probabilidade de eu receber um convite desses novamente? Zero. Mas se isso acontecer com você, pelo menos agora já sabe: não pode fazer barulho na hora do brinde!

 

Vinhos australianos servidos no evento: Philip Shaw

Philip Shaw No. 11 Chardonnay 2013, Orange

Leeuwin Estate Art Series Riesling 2013, Margaret River

Cape Mentelle ‘Trinders’ Cabernet Merlot, Margaret River

Clonakilla Hilltops Shiraz 2013, Canberra Region

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