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outubro 2015

PlacaMc
Outras viagens

Comer no Mc Donald’s pode causar câncer. E agora?

Essa semana conheci um projeto muito interessante do Governo da Califórnia: na porta do Mc Donald’s vi uma plaquinha avisando que os produtos vendidos ali contêm químicos nocivos pra saúde humana, podendo causar câncer ou defeitos em fetos.

Só esqueceram de adicionar “bom apetite”. Quem consegue comer gostoso depois dessa?

Agora veja minha situação: Acordei louca de fome no meio da noite, perdida no fuso horário. Vou ao restaurante do hotel, e ele está fechado. Pergunto na recepção se tem algum restaurante que entrega ali de madrugada, e a resposta é não nesse horário. Conclusão: minha única opção de comida por perto era qual? Mc Donald’s 24h, a um minuto caminhando!

Foto tirada na porta do meu hotel. Conveniente demais, né?

Foto tirada na porta do meu hotel. Conveniente demais, né?

Com plaquinha ou sem plaquinha, tive que comer ali mesmo. Mas aquele Mc Fish desceu doendo a consciência… Não pude evitar a culpa.

Por mais que não seja novidade que junk food faça mal pra saúde, garanto que o aviso funcionou pra mim. Se eu tivesse outra opção, não teria comido lá.
Mas minha impressão é que o problema de comer mal nos Estados Unidos vai além da conscientização das pessoas e da disponibilidade 24h. Comer bem custa caro. Enquanto uma rede de fast food vende dois hot-dogs com um refrigerante a vontade (refil) por 1 USD, o Wall Mart (mercado mais barato daqui) vende um abacate por 2.5 USD. Uma bandejinha de carne moída custa 5 USD. Com isso você paga o almoço da sua família toda, incluindo o refrigerante infinito. Não dá pra competir com esses caras!
De qualquer forma, espero que a iniciativa motive as pessoas a comerem produtos mais saudáveis, e também que outros restaurantes fiquem abertos de madrugada pra quando eu acordar com fome.
Vai comer no Mc Donald’s? Bom apetite!

Aviao_com_bebe
Dicas, Ser mãe no exterior

9 dicas de uma mãe que voou mais de 50 vezes com sua bebê

Essa semana nos perguntamos quantas vezes a Sara, nossa filha de 2 anos, tinha entrado em um avião. Fizemos as contas e tomamos um susto: mais de 50 vezes! Na maioria dos casos, o Franck estava junto, mas muitas vezes estávamos só nós duas.

Aprendemos demais durante essas incontáveis horas fazendo mala, esperando em filas de aeroporto e dentro de aviões. Por isso, sinto a obrigação moral de dividir essa experiência com vocês, mães e pais que gostam de colocar o pé na estrada!

1- Escolha seus assentos de forma estratégica

A escolha dos assentos pode fazer toda a diferença entre uma viagem ok e um pesadelo. O segredo é sempre escolher os lugares da janela e corredor, deixando o do meio livre. Isso mesmo, não escolha o lugar ao lado do seu filho ou do seu parceiro. A explicação é simples: ninguém gosta de viajar na poltrona do meio, certo? Então há grandes chances desse espaço ficar vazio e vocês ficarem com três lugares, sem vizinho. Isso é ótimo se estiverem viajando com o bebê no colo ou se estiverem sozinhos com o pequeno. Mas e se o voo estiver lotado, meu filho e eu vamos separados? Não… Você acha que a pessoa que teve que ficar com a poltrona do meio vai preferir ir espremida entre você e uma criança ou trocar de lugar contigo? Vai por mim, essa técnica funcionou 100% das vezes com a gente.

2- Leve a cadeirinha do carro dentro da cabine do avião

Sara bonitinha na cadeirinha do carro, dentro do avião.

Sara bonitinha na cadeirinha do carro, dentro do avião.

A maioria das companhias aéreas permitem que você coloque a cadeirinha do carro sobre a poltrona do avião e não cobram nada mais por isso. Claro que só se aplica se você comprar a passagem do seu filho. As vantagens são muitas. Além de ser mais seguro, é um objeto familiar pro bebê, é muito mais confortável e você pode bloqueá-lo quando o sinal do cinto de segurança está aceso. Eu sei que parece horrível, mas se você tem um bebê de dois anos, entende o que estou falando… A outra grande vantagem é que assim nao terá que se preocupar em arrumar uma cadeirinha de carro quando chegar no seu destino final. Garanto que é muito mais fácil amarrar a cadeirinha na poltrona do avião do que no seu carro! Claro que se seu filho odeia a cadeirinha dele, esquece esssa dica. Mas se ele geralmente dorme bem sentadinho ali, com certeza isso vai facilitar sua vida.

A grande desvantagem é que você terá mais um trambolho pra carregar pelo aeroporto. O Franck arrumou uma forma ok de colocar nossa cadeirinha sobre o carrinho da Sara. Acabou ficando até fácil…

Importante: Encontramos muitas pessoas que trabalhavam nas companhias aéreas e não sabiam que era possível levar a cadeirinha na cabine. Se o pessoal do check-in te falar que não pode, pede pra falar com o chefe deles. Mas o ideal mesmo é ligar pra companhia aérea dias antes do voo pra confirmar se há alguma restrição de marca, tamanho, aeronave ou se precisa deixar isso avisado com antecedência. Também já aconteceu da nossa cadeirinha não ser aprovada para uso no pouso e decolagem. Nesse caso, o comissário trouxe o acessório pra gente logo que o avião subiu.

3- Reserve refeições especiais.

Já viram aquelas pessoas que são servidas antes de todo mundo no avião? Isso é porque elas escolheram um menu especial. São muitas as opções, entre vegetariano, com pouco sal, com pouca gordura, sem glúten, Kosher… Algumas companhias ainda têm a opção de menu para crianças.

Pra isso, você precisa identificar sua escolha durante a compra da passagem, ou ligar pra eles uma vez que receber o boleto. Isso nao tem nenhum custo extra e pode fazer a sua vida muito mais fácil dentro do avião, principalmente porque assim você evita que seu filho durma sem comer. Se vocês dormirem antes da comida ser servida, pode ser que ele acordem com fome, e não tenha mais nada para comer. Ninguém merece passar fome fechado no avião!

Sua refeição pode chegar até uma hora antes dos demais passageiros, sobretudo se seu assento for lá nas últimas cabines. Vocês vão terminar de comer logo, e poderão dormir logo.

4- Leve o carrinho até a porta do avião.

Mesmo que seu filho ande bem, recomendo ficar com o carrinho sempre por perto. Se seu portão de embarque for do outro lado do aeroporto, uma hora ou outra ele vai pedir colo. Carregar sua mala de mão, mais a cadeirinha do carro, mais o bebê vai ser difícil… Temos muita sorte porque a Sara ama o carrinho dela. Nos aeroportos, a deixamos sentadinha durante o check-in, mas depois incentivamos que ela corra por todos os lados pra gastar bastante energia (sim, minha filha é uma daquelas crianças que os pais deixam ficar correndo pelo aeroporto). A menos que a companhia aérea não permita, o carrinho está sempre conosco e serve também para apoiar as nossas tralhas.

Além disso, nunca se sabe quantas horas seu voo vai atrasar…

5- Não exagere na bagagem de mão

Prefira uma grande mochila ao invés da clássica mala de rodinhas. Sobretudo quando viajando sozinha com o bebê, se suas mãos puderem estar livres, será mais fácil pra cuidar de tudo. Mas não exagere no peso! É impossível levar TUDO o que você eventualmente possa precisar e não vale a pena… Geralmente, eu levo brinquedinhos pequenos (adesivos, post-it, um livro), uma troca de roupa, fralda, lencinho, bolachinhas, leite, água, chupeta, cheirinho e um antitérmico (muito importante!). Veja bem, isso nao é um check-list! Voce é quem sabe do que seu filho precisa, mas minha dica é, selecione bem o que vai levar.

6- Deixe seu pequeno participar do processo

A Sara adora colocar a boneca dela na bandeja da esteira de segurança e depois recuperá-la do outro lado. Ela também é responsável por entregar os cartões de embarque, fechar nossos cintos de segurança e abrir a cortina do avião quando necessário. Às vezes, empurra a mala, pede as coisas pras aeromoças, entrega os fones de ouvido… Nós também nos divertimos quando ela participa.

7- Verifique os documentos necessários pra que a criança viaje

Um casal de amigos não pôde embarcar com a filha pra Argentina com sua certidão de nascimento e perdeu o maior dinheirão…

Conheço uma brasileira que foi impedida de sair do Brasil com a filha porque o pai da menina esqueceu de deixar autorizado no passaporte dela.

Vale a pena ligar pra companhia aérea se você está na dúvida.

8-Encontre uma forma de compensar sua culpa

Se você é como eu, além de todo o sufoco da viagem, também vai ter que lidar com a culpa do seu filho incomodando os demais passageiros. Apesar de estar acostumada a viajar, a Sara chuta o assento da frente, coloca a mão na televisão do banco de trás, fala alto…

Antes de me sentar, já peço desculpas para meus vizinhos de fileiras e digo que farei o possível para manter as coisas sob controle. Esse simples gesto me ajuda muito.

Já escutei historias de pais que dão presentinhos para se desculpar. Um chocolatinho, um desenho feito pelo próprio filho, uma balinha… Achei a idéia ótima, mas ainda nao usei.

9- Aceite: você vai esquecer de levar alguma coisa

Mesmo seguindo o melhor check-list do mundo, você vai esquecer coisas. Mas o importante é não deixar isso te tirar do sério ou estragar sua viagem! Não se desespere e não brigue com seu marido, mesmo se foi ele quem esqueceu porque isso só piora as coisas. Vai no mercado, compra outro e deixa pra lá!

Espero que as coisas que aprendi sirvam pra vocês.

Minha dica principal: tenha muita paciência! Viagem com criança, por mais que seja organizada, sempre é complicada e cheia de imprevistos…

Boa sorte! Que seu filho durma a viagem toda!

Eu_Prostituta
Minhas histórias, Outras viagens

O dia que eu recebi uma lição de moral por ser prostituta

Em uma manhã de dezembro, chamei o taxi que passava na movimentada avenida de Lisboa. Achava que essa seria uma corrida como qualquer outra e nem imaginava que jamais esqueceria aqueles dez minutos…

Entrei no carro, falei bom dia e para aonde iria. O taxista português imediatamente começou a conversa:

  • És brasileira?
  • Sim, sou brasileira.
  • O que fazes em Lisboa?
  • Hoje estou só passeando, mas estou aqui trabalhando.
  • A trabalhar em Lisboa… Com o que trabalhas?
  • Sou engenheira, mas trabalho com marketing.
  • Esta nunca havia escutado… Então a rapariga é mesmo engenheira? Engenheira de que?
  • Engenheira Agrônoma.
  • Engenheira Agrônoma… Tu sabias que é preciso estudar para ser engenheira?
  • Perdão?
  • Rapariga, eu sei muito bem o que fazes em Lisboa. Não sou policial, não tens que mentir.

Fiquei muda, completamente perdida. Como assim não tem que mentir? O que que a polícia tem a ver com meu trabalho? Por que raios esse cara resolveu puxar conversa?

Então, assim mesmo completamente do nada, ele começou a falar que as jovens brasileiras, como eu, estávamos atrapalhando o país dele. Disse que a maioria das prostitutas de Portugal são brasileiras (o que não é verdade) e que já era hora de pararmos de ir pra lá fazer isso. Sugeriu que deveríamos tentar ir pra Itália porque era fácil de entender o italiano. E blá blá blá…

Depois do seu monólogo, claro que entendi o que estava acontecendo: o português tinha mesmo certeza de que eu era prostituta!

Fazia frio, e eu estava coberta de roupas da cabeça aos pés. Estava sem salto, sem maquiagem,  sem bolsinha e sem nada vermelho. Eu não rebolo quando ando e, ainda por cima, estava com uma mochila nas costas. Ou seja, nenhum outro clichê se aplica.

Percebam que a situação é mesmo grave porque ele chegou à essa conclusão baseado apenas em uma informação: eu sou uma jovem brasileira! Isso já era suficiente para assumir que eu não poderia estar fazendo outra coisa em Lisboa. É o fim do mundo, ou eu é que estou ficando louca?

Infelizmente só senti essa revolta horas depois que saí do taxi… Por alguma razão, naquele momento eu precisava convencê-lo de que eu era mesmo engenheira e meu trabalho era outro. Além de tudo, eu nem morava lá!

Bom, adivinhem o que aconteceu quando eu comecei a me justificar? Comecei a chorar.

Nessa hora o português ficou mudo. Percebeu que foi longe demais e aí  foi ele quem começou a se justificar. Ele até se desculpou.

Saí do taxi, ainda aos prantos, e claro que esse episódio estragou meu dia. Voltei pro hotel e trabalhei até a noite. Antes do jantar, fui ao bar do hotel ler meu livro e tomar um drinque. Eu tinha a sensação de que todos os homens ao meu redor estavam me olhando e poderiam estar pensando que fosse prostituta. Fui embora dali sem mesmo terminar minha bebida, antes que alguém viesse me perguntar “quanto custa o programa?”.

Posso entender que as estatísticas não me ajudam muito: Ano passado, um estudo da Faculdade de Psicologia do Porto entrevistou as profissionais do sexo de Portugal e descobriu que 32% delas são brasileiras.

O perfil padrão é bem parecido com o meu: brancas, maiores de idade, com curso médio ou superior (Dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal).

Mas e daí? Isso dá direito ao taxista de me rotular e julgar?

Li em blogs de outras brasileiras morando no exterior que muitas delas já passaram por situações semelhantes na Europa. Isso aconteceu comigo há quase dez anos e pelo visto a tendência não é melhorar.

Preconceito é muito feio, muito errado e muito o fim do mundo! Enquanto morava no Brasil, esse meu mesmo perfil me deixava em uma situação confortável. Mas fico imaginando o que é passar toda a sua vida sendo rotulado e julgado. Você já pensou nisso?

Queria deixar claro que, apesar de ter me ofendido, não quero eu ser errada com as prostitutas! Sem hipocrisia, acho fundamental cada um poder escolher o que quer fazer da própria vida. Essas mulheres tem meu respeito sim. Não gosto nem de imaginar os sufocos que elas passam… Inclusive, aquele mesmo estudo da Faculdade de Psicologia do Porto mostra que quase metade delas sofre de doença mental. Bizarro, né? Mas isso não vem ao caso nesta conversa…

Também quero registrar que não é porque alguns portugueses são preconceituosos conosco, que podemos assumir que todo português é racista. É justamente este o meu ponto: da mesma forma que nem toda brasileira ganha a vida fazendo sexo, está errado afirmar que todo muçulmano é terrorista, todo asiático é tímido, todo nordestino é folgado, todo negro é bandido e etc. A lista de clichês é bem longa, por isso minha dica é: cuidado com o que você fala e pensa. Toda generalização é burra, inclusive essa! (hein?)

Uma das coisas que mais me fascinam nesta vida de viajante é constantemente poder aprender sobre as pessoas e superar meus próprios preconceitos. Fiz amigos asiáticos, negros, europeus, comunistas, conservadores, gays, muçulmanos, judeus, budistas, ateus, extremamente ricos, extremamente pobres, extremamente inteligentes, extremamente simples, gente que foi pra guerra, gente que viajou o mundo e gente que mora em uma cidade perdida no meio do nada. Isso mudou minha forma de ver a vida.

Por um mundo melhor, com menos taxistas achando que sou prostituta, com menos preconceito e mais balinhas*! Namaste!

*Essa história de balinhas eu explico em um outro post

Algumas fontes desse artigo:

Quase metade das prostitutas em Portugal sofre de doença mental

Estudo identifica perfil das prostitutas brasileiras em Portugal

Pesquisador brasileiro está em Portugal para apresentar painel sobre prostituição internacional

Brasileiras em Portugal: prostituição e estigmatização, um relato em primeira pessoa

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Curiosidades

Quem vai de salto alto em um parque de diversōes? Quem vai comer caviar, claro!

Hoje estávamos em um parque de diversões e vi um pessoal andando todo arrumado. Coisa estranha; nós suados correndo atrás da Sara e esse povo de salto alto… Como assim?

Fui me informar, e pra minha surpresa, eles estavam indo jantar na roda gigante! Descobri que o Luna Park (em Sydney) está fazendo muito sucesso com essa ideia.

Fui ver de perto. O pessoal tem dificuldade pra subir nas cabines porque balança muito e os copos caem das mesinhas. É bem apertadinho, mas parece que dá certo.

O jantar é servido por etapas; ou melhor por volta20151004_193703s! O menu de três pratos inclui opçōes finas como foie gras, ostras, caviar e pato.

Os preços variam entre 350 e 400 dólares australianos por casal (970 e 1.110 reais). Agora faz sentido colocar um saltinho, né? Mesmo sendo caro até pros padrōes australianos, a fila de espera é de duas semanas.

Gostei, mas não me animo não…

Ainda está curioso? Aqui você encontra mais informaçōes /  menu .

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Minhas histórias

Como fui parar em um almoço com o Presidente da França e o Primeiro Ministro Australiano

Em uma ordinária tarde de terça-feira, estava eu no trabalho, em Sydney, quando escutei a frase mais inesperada da minha vida:

– “Rachel, você recebeu um convite para almoçar com o Presidente francês e o Primeiro Ministro australiano!” Quem falava era o Daniel, meu funcionário australiano, que tinha acabado de receber uma ligação do gabinete do Primeiro Ministro.

Minha primeira reação foi achar que entendi errado:

– “Excuse me?” , Digo eu.

– “O Primeiro Ministro australiano está convidando você para um almoço em honra do Presidente francês.”, Explica o Daniel, mega empolgado.

– “Você pode repetir, por favor?” Digo eu, outra vez…

– “O Presidente francês vem pra Austrália daqui a duas semanas. Acabei de receber uma ligação de Canberra. Você está sendo convidada pra almoçar com ele. O convite oficial chega essa semana. Eles precisam confirmar se você vai.”

Depois de fazê-lo repetir mais algumas vezes, me dei conta de que ele estava mesmo falando o que eu tinha entendido… Mas fala sério! Quando na minha vida eu poderia imaginar receber um convite desses?

Eu sabia que o François Hollande estava pra chegar na Austrália, por isso aquilo até fazia um pouco de sentido. Peguei meu celular, me afastei das pessoas e liguei para o gabinete do Primeiro Ministro (na época, o Tony Abbott) para ter certeza de que não se tratava de um mal entendido. Falei com a organizadora do evento que me garantiu que era tudo verdade. Perguntei se o convidado não deveria ser chefe, o CEO da empresa na Austrália. Ela disse que que o convite era para mim, não para a empresa, e que era intransferível.

E agora? Como você se prepara para um evento desses? Como eu vou contar isso pras pessoas? Que roupa eu vou? Vou de salto? Levo bolsa? Posso tirar foto? Vai passar na televisão? O que eu vou falar pro Presidente? E pro Primeiro Ministro? Como eu vou pra Canberra?

Aos poucos minhas duvidas foram se esclarecendo. Acabei contando pra pouca gente e decidimos que esse seria um momento especial para nossa família. Fomos todos de carro (3 horas) pra capital australiana: O Franck, a Sara, a Ju (minha amiga carioca que estava nos visitando) e eu!

A turma toda me acompanhou até a National Gallery, um museu maravilhoso onde foi o evento. Chegamos bem antes que todos os outros convidados.

Almoco_com_PresidenteNa fila para entrar na sala de eventos, percebi que eu não era a única pessoa que parecia perdida naquele ambiente. Abordei uma moça que também estava sozinha e logo fizemos amizade. Ela era francesa, morava na Austrália há dez anos e trabalhava com pesquisa cientifica.

Tivemos um coquetel no jardim da galeria, mas até então, nada de Presidente ou Primeiro Ministro. Depois de cerca de uma hora, passamos para a sala principal de eventos. As mesas eram pré-definidas e minha nova melhor amiga não estava comigo.

Ao meu lado estavam um guarda-costas, os embaixadores polonês e sul-coreano, dois empresários franceses, a presidente da Aliança Francesa e uma das mais famosas designers australianas, a Kim Ellery. Aliais, a marca dela- Ellery- é maravilhosa; ela faz roupa pra Madonna.

Cerca de 20 minutos depois, finalmente Francois Holande e Tony Abbott chegaram. Todos ficaram em pé e aplaudiram sua chegada. Eles se sentaram na mesa ao lado da minha.

Poucas vezes na vida estive tão nervosa. Completamente fora da minha zona de conforto, não sabia que tipo de assunto abordar com o pessoal da minha mesa. Conclusão: só dei bola fora. Confundi a bandeira da Bélgica com a da Polônia (elas não tem NADA a ver), reclamei de ter que levar a Sara pra creche de ônibus na época da chuva (esse povo não anda de ônibus), perguntei pro embaixador se ele ia a muitos eventos como esse (óbvio que sim), e por aí vai…

Mas o mico maior foi na hora do brinde… Você sabia que em eventos diplomáticos não pode fazer barulho de copos batendo na hora do brinde? Não sabia, né? Pois é claro que eu também não sabia…

A mestre de cerimonias (Sarah Murdoch, uma celebridade australiana), anuncia que o Primeiro Ministro quer fazer um brinde em homenagem ao Presidente francês. Todos ficam em pé. Tony Abbott ergue a taça. Todos erguem a taça. Os convidados da mesa dele brindam. Eu viro pro lado toda empolgada e bato minha taça com a da Kim Ellery. Ela olha pra mim com cara de ‘o que você está fazendo’ e sussurra “shiiii, nós não podemos fazer barulho”. Olho pro lado e está todo mundo olhando pra mim… E fui a única jeca que fez barulho nessa hora. Como eu poderia saber que só os convidados da mesa dele podem bater as taças? Fala sério…

O fora do brinde me deixou ainda mais desorientada, mas logo os chefes de estado e o líder da oposição, Hon Bill Shorten, fizeram seus discursos. Essa parte foi bem interessante. Eles falaram sobre a relação entre os dois países desde o “descobrimento” da Austrália, passando pela Primeira Guerra Mundial, até os dias de hoje.

Os discursos me acalmaram e eu tinha até começado a me sentir um pouco mais a vontade. Eu me perguntava se teria a oportunidade de falar com os políticos. Se eles viessem me cumprimentar, o que eu diria? Como eu me apresentaria? Poderia pedir pra tirar uma foto com eles?

Aa perguntas continuaram sem respostas, e antes do almoço ser servido, tivemos uma bela apresentação do The Australian Ballet (Stringspace String Quartet). Muita gente começou a tirar fotos dos bailarinos, então eu aproveitei pra tirar algumas também. Todas ficaram péssimas.

Em seguida, chegou o primeiro prato típico australiano: salada de camarões com aipo, tomate e abacate! Advinha quem não come camarão? Eu! Nessa hora, desisti de tentar pertencer àquele grupo de pessoas que não tem nada a ver comigo… Aceitei que o pé já estava completamente na jaca, e nem fiz questão de ser diplomática. Deixei os bichinos no meu prato, olhei pros meus amiguinhos e fiz cara de ‘é, camarões; não vai dar…’.

Pra minha sorte, o prato principal estava bem bom: carneiro com ratatouille, flor de abobrinha e suco de tomilho. Mas antes mesmo de chegar a sobremesa, uma movimentação estranha começou na mesa ao lado da minha. Estavam todos em pé, e nao parava de chegar gente pra tirar foto com o François Hollande. Me perguntei: será que é agora que devo ir cumprimenta-los? Eles vão passar em todas as mesas? Espero a sobremesa?

Mas antes mesmo de encontrar minhas respostas, acabou tudo! Quando eu olho pro lado, vejo os guarda-costas fazendo uma fila, e o Presidente e o Primeiro Ministro saindo da sala, e acabou! Assim, de repente. Fiquei olhando pro nada por alguns segundos, e tive que aceitar a realidade: Fui até Canberra, paguei mico e não tirei nenhuma selfie com eles!

Quase todos foram embora quando o Presidente saiu e quando a sobremesa chegou, a sala já estava quase vazia. Peguei meu sorbet de framboesa, sentei na mesa da francesa cientista, e ficamos rindo da nossa situação patética. Ela não brindou na hora errada, mas tampouco tirou foto com as celebridades.

Agora você ainda deve estar se perguntando por que eu fui convidada para um evento desses? A resposta é simples: Não sei! Até hoje eu me faço a mesma pergunta. Algumas das pistas são porque eu trabalhava para uma empresa francesa e falo francês. Meu ex-chefe acha que escolheram meu pelo LinkedIn. A verdade é que eu nunca saberei ao certo…

Apesar das frustrações e bolas fora, adorei a experiência. Quais é a probabilidade de eu receber um convite desses novamente? Zero. Mas se isso acontecer com você, pelo menos agora já sabe: não pode fazer barulho na hora do brinde!

 

Vinhos australianos servidos no evento: Philip Shaw

Philip Shaw No. 11 Chardonnay 2013, Orange

Leeuwin Estate Art Series Riesling 2013, Margaret River

Cape Mentelle ‘Trinders’ Cabernet Merlot, Margaret River

Clonakilla Hilltops Shiraz 2013, Canberra Region

CLAUDE
Dicas, Ter um pug no exterior

Vai mudar de país? Considere deixar seu cachorro no Brasil…

A Claude tem sete anos e está conosco desde seus 3 meses de vida. Ela chegou em nosso lar quando morávamos no México.

Em 2010, nos mudamos para os Estados Unidos. Ela veio conosco dentro da cabine do avião, aos pés do Franck (meu marido). Tínhamos preparado as vacinas e certificados requeridos, mas em nenhum momento fomos abordados por ninguém; nem para embarcar, nem para desembarcar. Não posso dizer se essa é a regra ou se fomos uma exceção. Só sei que foi muito fácil imigrar com a Claude do México para os Estados Unidos.

Em 2014, mudamos de Atlanta para Sydney, na Austrália. Quando fizemos nossa primeira busca na internet para entender o que seria necessário para poder viajar com nossa peluda, tivemos um enorme susto. Pensamos que o pessoal estava exagerando e que a lei não poderia ser tão rígida assim… Mas ao continuar nossas pesquisas, nos demos conta de que não teria nenhum jeitinho brasileiro (ou francês) que pudesse facilitar o processo… Até nos consideramos “sortudos” porque a Austrália não aceita animais vindo de certos países do mundo. O Brasil é um deles!

Vocês viram o que aconteceu com o Jonny Deep esse ano? Ele embarcou pra Austrália com seus cachorros em um avião particular. Quando o Departamento de Agricultura soube disso, o artista teve que fazer uma escolha: mandar os cachorros de volta para os Estados Unidos ou sacrifica-los! Os peludos voltaram pra casa e a historia foi a maior polemica na terra dos cangurus. Se nem o Jonny Deep conseguiu dar um jeitinho, imagine nós…

Tivemos que iniciar a papelada de imigração da Claude muito antes da nossa. Precisamente, seis meses antes que ela pudesse embarcar. Vacinas, exames de sangue, novo microchip, certificados dos governos americano e australiano, tratamento antiparasitário, etc. Veja o nosso sufoco passo a passo no final do artigo.

Em paralelo com a preparação solicitada pelo governo Australiano, tivemos que organizar sua viagem aérea. Pra começar, a chegada de animais na cabine de passageiros não é autorizada na Austrália. Não deu pra ela viajar conosco dessa vez. Tivemos que organizar seu envio como cargo. Isso não teria sido um problema tão grande não fosse a ausência de voos diretos de Atlanta à Sydney. Tivemos que contratar uma empresa especializada para fazer a papelada de imigração da Claude no aeroporto de Los Angeles, onde ela fez sua ultima conexão nos Estados Unidos.

Outro detalhe é que as companhias aéreas americanas não transportam animais vivos se a temperatura do dia for maior que 29.4 graus Celsius. Eles querem evitar que os bichinhos sofram com o calor no aeroporto. Então tivemos que fazer nossa pug voar nos primeiros voos das manhãs, para que as temperaturas ainda estivessem amenas. Isso quer dizer que ela esteve três dias completos dentro de uma caixa, pra lá e pra cá, entre aeroportos e aviões.

Bom, depois de tanto sufoco, chega nosso bichinho na Austrália! Acabou a tortura? Não! O pior está por vir… Ela teve que ficar 10 dias em quarentena, sem receber visitas. Mesmo assim, fomos até o canil para tentar dar um jeito de vê-la.

Não conseguimos passar do portão, mas foi lá que eu descobri tudo o que estava acontecendo: Nossa Claude estava doente e passando frio. Saindo de um verão de 40 graus, ela veio parar em um canil aberto onde as temperaturas caiam para 5 graus a noite. Trancada o dia inteiro nesse espaço de 3 metros quadrados, ninguém a levava para passear. A Claude jamais faria xixi onde ela come e dorme. No que deu? Infecção no trato urinário que só foi curada quando ela chegou em casa…

Passamos horríveis 10 dias. Muito arrependimento de ter feito ela passar por tudo isso. Muitas e muitas e muitas lagrimas… Tanto dela quanto nossas… Sentimos que nossa pug nunca mais foi a mesma depois dessa viagem.

Essa historia toda nos custou quase 5.000 dólares americanos. Sim, você leu bem, 5.000… Quando começamos o processo, não tínhamos ideia de quanto isso valeria. No final das contas, felizmente a empresa em que o Franck trabalha assumiu esses gastos. Mas o sofrimento que todos nós passamos, sobretudo nossa peluda, não tem preço…

Se você conhece alguém que está pensando em importar um animal para Austrália, fala pra ele não cometer o mesmo erro que nós. Descobri que algumas pessoas enviam seus bichinhos para a Argentina, para que, de lá, eles possam embarcar para a Austrália. Loucura total… Por mais que eles sejam parte da família, me parece egoísta demais fazê-los passar por tudo isso. Eu aconselharia deixa-los com seus pais, amigos, ou até mesmo considerar adoção. Nós não imaginávamos nossas vidas sem a Claude, mas a culpa de fazê-la passar por tudo isso vai ser muito difícil de superar.

Passo a passo da papelada para importar cães na Austrália:

  • Preencher formulários para pegar a pré-aprovarão do governo Australiano para importar nossa bebê. Isso tem um custo $.
  • Instalar um segundo microchip nela, porque o existente não era compatível com o escâner australiano. $
  • Tomar vacinas e fazer teste de sangue para provar que as vacinas fizeram efeito. Isso também tem um custo. O detalhe é que o governo te dá uma programação específica das datas em que o cachorro precisa tomar cada vacina. Se você perder as datas, precisa começar tudo outra vez. Outro detalhe é que muitas dessas vacinas a Claude não teria que ter tomado jamais na vida… Pra ajudar: ela teve reações horríveis na maioria das vezes… $
  • Com tudo isso feito, um veterinário oficial do governo dos Estados Unidos precisava reconhecer que as vacinas foram tomadas e que os exames de sangue são verdadeiros. Como assim? Nosso veterinário teve que mandar todos os documentos para o órgão do governo responsável e esperar a boa vontade deles pra responder (sim, até nos Estados Unidos é complicado). Isso também tem um custo.
  • Com esse documento em mãos, aplicamos oficialmente para ter a autorização de importação da Claude. Isso também tem um custo.
  • Tivemos que reservar o espaço para a quarentena dela em Sydney. $
  • Fazer novas vacinas e novos exames de sangue. $
  • Fazer tratamento antiparasitário (externos e internos) e exames de sangue para provar que eles funcionaram. $
  • Fazer um ultimo exame clinico e pegar novo certificado do governo americano. $

Você acha que eu estou exagerando? Visite o site do Departamento de Agricultura da Austrália www.agriculture.gov.au/cats-dogs